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Palavras verdadeiras não são lisonjeiras.

Palavras lisonjeiras não são verdadeiras.

O homem de bem não fala muito.

Quem fala muito não é homem de bem.

Homens sábios não são eruditos,

Homens eruditos não são sábios.

Quem trilha o caminho da perfeição

Não acumula tesouros.

Riqueza é para o sábio

O que ele faz pelos outros,

Tanto mais rico se torna.

Assim como de Tao brota a vida,

Assim age o sábio

Sem ferir ninguém.

                                                                     Lao-Tsé

 

   Diz a sabedoria popular que de médico e de louco todo mundo tem um pouco, o que varia é a proporção. Bastante difundida entre os estudantes e o público em geral, por força dos filmes, comerciais de televisão etc., que reforçam tal imagem, está a visão de que o cientista, pelo menos o de qualidade, o genial, tem sempre “um parafuso a menos”. Tal visão é certamente equivocada, não havendo, entre os cientistas, mais desajustados do que entre os praticantes das demais profissões.

   Contudo, uma discussão que merece ser estabelecida é a de que, até que ponto, o desajustamento social de um indivíduo pode influenciar seu desempenho em pesquisa? Até que ponto uma coisa pode ser causa ou consequência da outra?

Henry Cavendish (1731-1810) devotou toda a sua vida à pesquisa, transformando sua própria mansão num grande laboratório. Do ponto de vista da pesquisa científica, as contribuições de Cavendish foram muito significativas, dentre elas sua pesquisa sobre calor e eletricidade, sendo este o primeiro a determinar a condutividade elétrica de soluções salinas.

   A descoberta do hidrogênio em 1766, conhecido durante muitos anos como “ar inflamável” foi mais uma de suas contribuições. A formação dessa substância química já havia sido notada antes, quando certos metais eram tratados com ácidos, mas Cavendish foi o primeiro a isolá-la, submetendo-a a um estudo sistemático: descrever, adequadamente, as suas propriedades.

  No livro Tio tungstênio – memórias de uma infância química, o neurologista Oliver Sacks levanta a hipótese de que Henry Cavendish seria, possivelmente, um autista. O autismo pode ser definido como um fenômeno patológico caracterizado pelo desligamento da realidade exterior e criação mental de um mundo atômico (dicionário Aurélio).

   Consta que Cavendish – cuja obra pode ser tida como monumental, cobrindo desde a descoberta do hidrogênio, passando por estudos sobre calor e eletricidade e pela medida do “peso da terra”, mediante o uso do célebre “balança de Cavendish” – era extremamente tímido e excêntrico, vivia em quase total isolamento, evitando falar, até mesmo, com seus empregados domésticos, com os quais se comunicava por meio de bilhetes. Recusava-se sempre a posar para retratos, sendo a única gravura existente – a reproduzida aqui – obtida às escondidas.

Devido a sua indiferença pela fortuna que possuía, bem como pela fama científica – por não haver publicado seus resultados ou por tê-los publicados tardiamente –, Cavendish deixou de ser reconhecido como pioneiro em diversos feitos: foi o primeiro a observar que a combustão de hidrogênio e oxigênio formava água – parece realmente enquadra-lo nesse “mundo autônomo” de que a definição de autismo nos fala.

   Ao que tudo indica, realizava suas meticulosas pesquisas científicas por puro deleite pessoal. Parece que Cavendish contradiz ao menos parte da definição de autismo, uma vez que sua investigação científica atenuava, em certa medida, seu “desligamento da realidade exterior” e não deixa de ser poético sabermos que o grande e talvez único elo entre o mundo de Cavendish e o nosso fosse a Ciência.

   Exibia um interesse verdadeiramente obsessivo em desvendar os mistérios da natureza, trabalhando de forma incessante, sem se preocupar com saúde ou a aparência. O fato de ser extremamente rico, dono de uma imensa fortuna – mais de um milhão de libras –, deu-lhe a liberdade necessária para se dedicar à pesquisa, enquanto sua personalidade, aparentemente desprovida de paixões – a não ser, é claro, a própria ciência – deu-lhe a postura racional e equidistante necessária para conduzir, de forma meticulosa, seus experimentos. Não parece exagero dizer que, sem sua personalidade tão peculiar, Cavendish não teria realizado tão notáveis feitos.

   Outro aspecto singular de sua personalidade era a aversão às mulheres. Assim, além de misantropo, era misógino. Consta que demitiu várias empregadas, pelo simples fato de estas terem cruzado seu caminho dentro de casa. Contudo, para estabelecer de vez sua condição de personalidade complexa, ao mesmo tempo que era um misantropo, Cavendish importava-se com o bem-estar da humanidade, ou, pelo menos, das pessoas mais próximas, visto ser notória sua caridade, distribuindo dinheiro para quem o procurava em busca de ajuda, sendo mesmo vítima de alguns interesseiros.

   Mesmo momentos antes da morte, Cavendish demonstrava sua misantropia: ele ordenou a seu criado pessoal que só após sua morte, seu irmão, Frederick, fosse chamado.

     Para Cavendish, dada a sua conduta de busca do saber pelo saber e de desapego às questões materiais – as de precedência com relação à descoberta científicas, inclusive – parecem válidas as palavras de Lao – Tsé:

[…] O sábio tudo realiza – e nada considera seu. Tudo faz – e não se apega à sua obra.

Não se prende aos frutos da sua atividade.

Termina a sua obra

E está sempre no princípio.

E por isso a sua obra prospera.

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