Na Antigüidade, muitas cidades eram cercadas por fortificações que as protegiam, tendo portas e arcos como entradas. Janus, deus romano, protetor das entradas ou começos, é representado por uma cabeça dotada de duas faces, posicionadas em direções opostas, conforme aparecem em antigas moedas romanas.
Moeda romana em ouro representando as duas faces de Janus – 225-212 a.C.
Depositada no Keensthistoreshes Vienna Museum.
As duas faces desiguais de Janus simbolizam a dualidade da natureza, isto é, portas que podem conduzir a caminhos diversos. Chama-se “Efeito Janus” a situação que apresenta soluções contraditórias, e no caso de substâncias químicas àquelas que podem ter aplicações diferentes e opostas, prejudiciais e benéficas. Relataremos mais adiante um exemplo clássico do “Efeito Janus”, uma arma química letal que se revelou um poderoso medicamento.
As armas químicas foram oficialmente definidas pela CWC (Chemical Weapons Convention – Convenção sobre Armas Químicas) como substâncias que, por meio do efeito químico sobre processos biológicos, possam causar morte, perda temporária de funções vitais, ou ainda, prejuízo permanente a pessoas ou animais. Mais ainda, para ser qualificada como arma química a substância deletéria deve agir de forma direta, sem o apoio de outras substâncias ou de qualquer forma de energia.n Assim, diferem-se das armas bacteriológicas, que se utilizam da dispersão de espécimes vivos como bactérias, vírus, ou qualquer outra forma de vida, que têm o intuito deliberado de prejudicar, transmitindo doenças, ou em última análise, de provocar a morte. Porém, ambas podem levar à exterminação em massa, e sua eventual utilização preocupa os governos de todo o mundo.
Durante mais de 20 anos, um esforço conjunto foi feito no intuito de estabelecer compromissos entre as nações, objetivando a proibição do desenvolvimento, produção, armazenamento e uso de armas químicas, bem como a destruição das já existentes, por meio da mencionada CWC. Como resultado, em 3 de setembro de 1992, durante a Conferência para o Desarmamento em Genebra, um tratado foi finalmente estabelecido, recebendo até hoje cerca de 174 adesões dos principais governos mundiais. Para a ratificação e fiscalização desse tratado foi fundada em Haia uma sede própria da OPCW (Organization for the Prohibition of Chemical Weapons – Organização para a Proibição de Armas Químicas).
Edifício sede do OPCW, em Johan de Wittlaan, Haia. Projeto de Kallmann, McKinnell & Wood, arquitetos.
Observando o conceito estrito de arma química, acima mencionado, vemos que o napalm e outros agentes incendiários, muito usados durante a
Guerra do Vietnã, não se enquadram neste grupo, pois requerem o uso de energia térmica. Na Segunda Guerra Mundial, esses não menos terríveis agentes incendiários foram empregados em lança-chamas e bombas, constituídos de uma mistura de gasolina, outros derivados do petróleo e um agente emulsificante (o napalm, que converte a mistura em uma gelatina densa que se torna fluida sob pressão, ligando-se permanentemente aos alvos que atinge). Inicialmente, foram usados como emulsificantes certos tipos de sabões de alumínio, e posteriormente poliestireno. O napalm e seus similares provocam queimaduras profundas, que podem originar deformidades, além de envenenamento por monóxido de carbono.
Por outro lado, as bombas de gás lacrimogêneo são consideradas armas químicas, embora não mortíferas. O gás lacrimogêneo provoca intensa irritação nas vias respiratórias e nos olhos, com produção incontida de lágrimas, mas tem efeito passageiro não deixando seqüelas. Muitas substâncias têm sido usadas como gás lacrimogêneo: a cloroacetofenona, o orto-clorobenzilideno-malono-nitrila, o di-benzeno e o 1,4-oxoaxepina. Sólidas à temperatura ambiente, essas substâncias são estáveis quando aquecidas. Em geral, possuem baixa solubilidade em água, mas são dissolvidas facilmente em solventes orgânicos.
O ácido cianídrico, HCN, é um produto químico letal largamente utilizado não como uma arma, mas como meio de execução em penas de morte. Devido à sua altíssima toxidade esta substância é utilizada em câmaras de gás, e, em épocas passadas, como forma de extermínio em massa nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. À temperatura ambiente o ácido cianídrico é um líquido incolor que ferve a 26 °C; causando a morte sob a forma gasosa. Seu efeito consiste na inibição de enzimas contendo metais, sobretudo a citocromo oxidase, que contém o elemento ferro, Fe. Esse sistema enzimático é responsável por processos que fornecem energia dentro das células, onde oxigênio é utilizado, isto é, na respiração celular. Quando este processo cessa ocorre falência de todas as funções vitais do organismo, resultando a morte.
As armas químicas mais agressivas e mais modernas são aquelas que atuam sobre o sistema nervoso da vítima. Fisiologicamente, os efeitos tóxicos dos chamados “agentes dos nervos” ocorrem pela desativação da enzima colinesterase, que controla a transmissão dos impulsos nervosos, e sem esse controle as funções biológicas, como a respiração, param de operar. Os agentes dos nervos pertencem ao grupo dos compostos de organo-fosforados, que são estáveis e de fácil dispersão como o tabun, o soman, o sarin e o vx. Sarin, o mais conhecido, correspondendo ao óxido da fluoroisopropoximetilfosfina, desenvolvido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e utilizado pela Aum Shinri Kyo, seita japonesa, no ataque terrorista ao metrô de Tókio, em 1995, envenenando milhares de pessoas e matando onze.
E tratando de armas químicas, vamos finalmente falar sobre o gás de mostarda, produzido pela primeira vez em 1822, o protagonista do “Efeito Janus” acima mencionado.
Quimicamente trata-se do 1,1-tiobis (2-cloroetano), que deve seu codinome mostarda ao fato de quando impuro possuir odor semelhante à mostarda, alho ou cebolas podres. Usado intensamente na Primeira Guerra Mundial, causa inflamação na pele e formação de vesículas, bolhas muito dolorosas. Em concentrações altas pode provocar cegueira e, se inalado, destruir os alvéolos dos pulmões, levando à morte.
O gás de mostarda serve para demonstrar o princípio de que para tudo há dois caminhos, o do bem e o do mal. Utilizado durante muito tempo como arma química, ocorreu com ele uma coincidência histórica que resultaria na descoberta da Quimioterapia. Esse incidente, que ficou conhecido como “Efeito Janus”, ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial.
Dr.Cornelius Packard Rhoads.
No dia 3 de dezembro de 1943, o navio Liberty, onde servia como oficial médico, o Dr. Cornelius Packard Rhoads, estava ancorado no porto italiano de Bari. Bombardeiros alemães atacaram o porto e afundaram 16 navios, dentre eles o Liberty, que, além de munições e mantimentos, carregava secretamente 100 toneladas de gás de mostarda. Rhoads tratou de mais de 600 sobreviventes do Liberty, os quais apresentavam olhos muito irritados, queimaduras e muitos problemas internos, além de exalarem um estranho cheiro no ar. O médico observou ainda uma queda dramática no número de glóbulos brancos desses marinheiros, efeito atribuído ao gás de mostarda. Daí, Rhoads deduziu que se esse composto era capaz de destruir glóbulos brancos também poderia ser utilizado para combater o câncer, principalmente a leucemia e a doença de Hodkins, em que o aumento dos leucócitos é brutal.
Ao mesmo tempo, dois outros cientistas da Universidade de Yale, Louis Goodman e Alfred Gilman, imaginaram que outras formas de câncer poderiam talvez ser tratadas quimicamente. Assim, terminaram por desenvolver a droga mecloroetamina, relacionada ao gás de mostarda, que ainda hoje é usada no tratamento da leucemia. Rhoads voltou aos Estados Unidos após a guerra, fundando e dirigindo o Sloan-Kettering Institute for Cancer Research, e até o fim de sua vida produzindo novas potentes drogas contra o câncer. Foi assim que o “Efeito Janus”, revelado por meio do gás de mostarda, deu início à forma de tratamento do câncer através de drogas químicas, a Quimioterapia.
Fonte: www.moderna.com.br