Era dia de prova de química para oitava série do turno da manhã. O professor não podia ser melhor. Ajudava os alunos nos conteúdos que tinham dificuldades, deixava a turma conversar por alguns minutos durante a aula, nunca ralhava com os alunos, era compreensivo, calmo e agia com cautela. Era o professor perfeito!!!
Todos tinham estudado muito para a prova, menos Carlos, que achava que estudar era perda de tempo. Já tinha rodado três vezes, duas na quinta e uma na sétima. Estava com dezesseis anos, e só estudava porque seus pais o obrigavam. No início do ano fora bem avisado por seus pais que não poderia ficar em recuperação em nenhuma matéria e em nenhum bimestre, sob pena de durante as férias não poder fazer o que mais gostava: ir para a casa de sua avó, na praia. Carlos tinha uma prancha toda incrementada e adorava surfar.
O professor entregou as provas, fez recomendações e desejou boa sorte aos alunos. Com dois períodos para responder as questões Carlos achou que ia ser moleza. O professor de química sempre fazia provas fáceis, com respostas quase óbvias. Mais parecia uma revisão dos conteúdos.
Carlos leu a primeira questão. Logo leu toda a prova. Entrou em pânico, não sabia o que responder. O tempo foi passando e alguns alunos começaram a terminar. Quando faltavam apenas dois minutos para acabar o período, Carlos, entre arrasado e apavorado, com o suor escorrendo pela testa, foi o último a entregar a prova. Estava em branco.
No dia seguinte, o professor devolveu as provas corrigidas como prometera. Carlos tirou zero. Ele já sabia que tinha tirado essa nota, mas no final da aula foi procurar o professor na sala dos professores. O professor recebeu-o gentil e oferecendo um copo de água convidou-o para sentar e conversarem. Carlos estava nervoso e reclamou da prova. Pediu uma segunda chance: poderia fazer uma outra prova ou um trabalho de pesquisa. Mas o professor calmamente explicou que era impossível. Não programara nada que substituísse a prova, ainda mais que todos os outros alunos da turma tiveram notas altas. Carlos, descontrolado, começou a insultar o professor. Não conseguia imaginar ficar todas as férias sem fazer o que mais gostava.
Diante de uma situação que nunca havia passado durante quase dez anos dando aulas, o professor de química, que sempre fora respeitado e elogiado por alunos e pela direção não sabia o que pensar e muito menos o
que fazer. E entre decepcionado e furioso começou a sentir algo que nunca sentira antes…
Na casa de Carlos, já passava das duas horas da tarde quando seus pais resolveram ir até o colégio para ver o que havia acontecido. O filho sempre chegava logo depois de a aula acabar.
Na casa do professor de química, sua esposa, que também já estava preocupada, pois ele nunca se atrasava para o almoço, decidiu ir ao colégio atrás do marido.
Todos chegaram ao mesmo tempo no colégio. Conversaram com a direção e saíram à procura dos desaparecidos. Revistaram todas as salas, de cima a baixo. Só faltava o laboratório. Quando abriram a porta encontraram Carlos caído, inerte. Estava morto. E o professor de química? Nunca mais ouviram falar nele.
Autora: Clarice Pacheco