Uma das armas químicas mais fortes é produzida por peixes e anfíbios. Apenas 1 mg é capaz de matar um homem adulto em poucos minutos. O Fugu, um dos melhores pratos da culinária oriental, pode conter uma pitada letal.
Tetrodotoxina (TTX) é o nome de uma toxina presente nos Tetraodontiformes, uma classe de peixes que possuem 4 dentes proeminentes (de tetras, 4 e odontos, dentes). Esta toxina, uma aminoperhidroquinazolina, está presente, também, em outros peixes: é produzida por determinadas bactérias que habitam os tecidos de criaturas marinhas. Alguns anfíbios, como o sapo dourado, também produzem esta toxina.
Um prato japonês muito apreciado é o Fugu: um peixe da ordem dos Tetraodontiformes. Mas nem todos estão aptos a preparar um prato a base de Fugu: somente chefs licenciados estão autorizados a preparar este alimento; eles devem remover, cuidadosamente, as vísceras dos peixes, especialmente o fígado e as glândulas onde a concentração de Tetrodotoxina é mais alta. Além de ser um prato muito caro, o Fugu pode ser um prato extremamente perigoso, quando preparado por mãos erradas.
A TTX é um dos mais fortes venenos conhecidos: 10 mil vezes mais forte do que o cianeto! Seus efeitos tóxicos começam com uma dormência dos lábios e língua. Dependendo da dose ingerida (a LD-50 é 1mg), um efeito paralítico progressivo afeta todos os movimentos musculares, incluindo o diafragma. Muitas vítimas morrem em menos de 2 horas após a ingestão. Não existe antídoto: cerca de 50% dos intoxicados morrem. A cada ano, cerca de 100 japoneses sucumbem devido à presença de tetrodotoxina residual no fugu.
A tetrodotoxina inibe a função nervosa bloqueando a passagem de íons sódio através dos canais iônicos nos nervos – impedindo a propagação do sinal nervoso. A tetrodotoxina se liga no canal de sódio graças ao seu grupo positivamente carregado guanidínio. O cátion, nesta molécula, é especialmente estável devido à ressonância entre os 3 átomos de nitrogênio. O resto da molécula confere estabilidade ao complexo “tetrodotoxina-canal iônico”. Esta classe de peixes possuem uma mudança sutil nos amino ácidos da proteína de seus canais de sódio, protegendo-os de seu próprio veneno.
Tetrodotoxina é também o principal ingrediente utilizado por “mestres”de Voodoo, no Haiti, para criar “Zumbis”. Em 1982, Wade Davis, um estudante da Harvard em etnobotânica, estava investigando um estranho caso de um homem que dizia ser Clarvius Narcisse, um haitiano que havia morrido em 1962. De acordo com este homem, ele havia sido enterrado vivo – apenas paralizado, pela ação de algumas drogas que o mestre de Voodoo havia lhe dado. Davis descobriu que os mestres de Voodoo utilizam um pó tóxico para formar os zumbis. Este pó é feito de vários ingredientes, incluindo pufferfishes (da classe Tetraodontiforme), que contém TTX. Este pó é introduzido diretamente no sangue, através de um corte na pele. O efeito é uma paralisia genérica, que, em muitos casos, se assemelha à morte.
Síntese da TTX
A estrutura da Tetrodotoxina foi elucidada, simultaneamente, por um grupo norte-americano e outro japonês, em 1964 (Woodward, R. B., Pure Appl. Chem. 1964,9,49; Goto T., Kishi Y et al. Tetrahedron 1965,21,2059; Tsuda, K., Ikuma, S. et al. Chem. Pharm. Bull, 1964, 12,1357).
A síntese da mistura racêmica de TTX foi obtida por Kishi (um químico, agora, da Harvard), em 1972 (Kishi, Y. et al. J. Am. Chem. Soc. 1972, 94). Até agora, o método de Kishi-Goto é a única rota sintética para o TTX com sucesso. Alguns passos são ilustrados ao lado; a rota completa inclui uma redução de Meerwein-Ponndorf-Verley, uma oxidação com selênio, uma epoxidação, uma cicloadição de Diels-Alder, e outras técnicas.
Texto extraído do brilhante site: http://www.qmc.ufsc.br/qmcweb/exemplar27.html